ENTREVISTA

Entrevista sobre o Acervo do João das Neves
Prof.(a). Marta Eloísa Melgaço Neves e Prof. José Francisco Guelfi Campos
Belo Horizonte, 27 de outubro de 2020

Qual a sua relação com arquivo pessoal do João das Neves?
Marta – Essa relação se deu no ambiente didático-pedagógico, no desenvolvimento de uma disciplina optativa para o curso de graduação em arquivologia, no segundo semestre de 2017. Logo no momento do planejamento desse curso, participaram da elaboração do programa os professores, José Francisco do curso de arquivologia, e Verona Segantini do curso de museologia. Nesse momento, também, avaliamos a necessidade de desenvolvimento de atividades que se aproximassem de uma prática. Foi quando procuramos a diretora da Divisão de Obras Raras e Coleções Especiais da Biblioteca Central, Diná Araújo, que generosamente nos disponibilizou o arquivo recém-adquirido de João das Neves.
José Francisco - Meu primeiro contato com o arquivo de João das Neves se deu em 2017, quando fui convidado pela professora Marta para colaborar na elaboração do programa da disciplina que ela estava oferecendo naquela ocasião. Até agora, esta foi uma das experiências mais marcantes na minha carreira como professor, pois realizamos um trabalho colaborativo de abordagem de um arquivo pessoal unindo os pontos de vista da arquivologia e da museologia, sem contar a diversidade das turmas, que contavam também com alunos do curso de biblioteconomia, num verdadeiro laboratório com o arquivo de João das Neves.
Marta – Acho que é importante ressaltar que a Divisão de Obras Raras e Coleções Especiais, ao nos receber de maneira tão aberta, entendendo que nós não estávamos ali como pesquisadores do arquivo, mas que estávamos utilizando o arquivo para uma experiência didática, abriu um campo importante para o desenvolvimento de atividades práticas de formação. E se o nosso contato com esse arquivo, num primeiro momento, se deu por esse interesse didático-pedagógico, ao longo do trabalho nós fomos absorvendo a tônica do trabalho do próprio João, que é a do trabalho coletivo.

José Francisco – E que vem se desdobrando em frutos interessantes não apenas do ponto de vista pedagógico, como também no sentido da produção de conhecimento sobre os arquivos pessoais, de forma geral, e sobre o arquivo de João das Neves, em particular, com trabalhos apresentados em eventos, artigos publicados em periódicos especializados...
Marta – ... Também o vídeo em homenagem a João das Neves, produzido a partir dos documentos do arquivo, exibido após a encenação de “Madame Satã”, em novembro de 2018, no teatro da reitoria da UFMG, além de um evento de dois dias, intitulado “Universidade e Arquivos Pessoais”, que contou com a participação de especialistas renomados.
José Francisco – E tivemos a oportunidade de entrevistar João das Neves, que nos recebeu em sua residência, em Lagoa Santa, para um encontro que foi registrado pela TV UFMG. Isso foi algo de uma emoção sem tamanho, porque pudemos conhecer em pessoa aquele homem que já conhecíamos, de certa forma, por meio do arquivo.
Marta – Nós pudemos através do seu arquivo perceber que João das Neves era um grande conhecedor da literatura sobre as artes cênicas; a presença, no arquivo, de esboços, nos permite avaliar o processo intenso de reflexão que João desenvolvia antes de executar a direção dos espetáculos.
José Francisco – Esse encontro também foi importante porque João, ao falar de sua vida e de sua carreira, também nos ajudou a compreender melhor a dinâmica da formação de seu próprio arquivo.


Qual a importância do acervo João das Neves visando à formação acadêmica
e ao desenvolvimento de pesquisas dentro da UFMG?

José Francisco – Sem dúvida, enorme. Do ponto de vista da formação, o arquivo de João das Neves configura um espaço ímpar de experimentação e aprendizagem, não apenas para os alunos do curso de arquivologia. No que diz respeito à pesquisa, é óbvio que o arquivo tem apelo especial para os pesquisadores das artes cênicas e da história do teatro no Brasil, mas o grande fascínio dos arquivos é justamente o fato de que seus usos escapam ao previsível: o potencial informativo dos arquivos é sempre insondável. Neste sentido, os documentos acumulados por João das Neves podem ser convertidos em fontes para pesquisas sobre temas surpreendentes, nas mais diversas áreas do conhecimento.
Marta – No contexto de Belo Horizonte, esse arquivo se destaca pelo fato de não haver instituições que tenham como política a aquisição de arquivos pessoais, como acontece no eixo Rio-São Paulo. Aqui, as aquisições vêm ocorrendo de maneira não sistematizada, muitas vezes vinculadas a uma perspectiva ampla de memória, em que a única exceção talvez seja representada pelo Acervo dos Escritores Mineiros, projeto desenvolvido pelo curso de Letras da UFMG.


Como se dá o processamento técnico de um arquivo pessoal repleto de itens tão peculiares? Quais profissionais devem participar desse processo?
José Francisco – O “pulo do gato”, ao trabalhar com um arquivo pessoal, é encontrar o elo entre cada documento e os lances (atividades, eventos) que constituem a trajetória de quem os acumulou, pois é essa relação umbilical entre os documentos e as atividades das quais eles participaram que dá sentido ao arquivo. Isso demanda um estudo minucioso da biografia do titular, que se completa a partir dos dados que vão sendo extraídos dos próprios documentos, ao longo do processo de descrição. É um trabalho forçosamente moroso, que requer um exercício complexo de pesquisa. Ao mesmo tempo, é um trabalho emocionante, é como montar um enorme quebra-cabeças! A variedade de espécies e tipos documentais que geralmente se encontra nos arquivos de pessoas acrescenta um grau de dificuldade à descrição, pois para identificá-las e nomeá-las adequadamente é preciso alguma erudição. São muitas as especialidades que podem concorrer para o tratamento completo de um arquivo pessoal: arquivologia, museologia, diplomática (disciplina que estuda a autenticidade dos documentos), linguística, conservação e preservação de acervos, tecnologia da informação... E no caso do arquivo de João das Neves, sem dúvida, também os especialistas em artes cênicas e em história do teatro. Contudo, essa interdisciplinaridade, sempre aludida no discurso da arquivologia, representa um desafio dos mais complicados na prática, pois é preciso harmonizar expectativas, interesses e referenciais muito distintos, por vezes contraditórios, e fazê-los convergir para um objetivo comum, sem deixar de lado o rigor na aplicação dos princípios e conceitos arquivísticos.
Marta – Apesar de toda essa complexidade demonstrada pelo professor José Francisco, algumas instituições que têm a custódia de arquivos pessoais cuidaram, nos últimos anos, de publicar diretrizes que auxiliam na tarefa de organizar esses arquivos, com destaque para os trabalhos da Fundação Fernando Henrique Cardoso, da Casa de Oswaldo Cruz, do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, que foi pioneiro.

O acervo se diferencia de outros por se tratar de um arquivo pessoal? Essa característica abre possibilidades para pesquisas?
José Francisco –
O fato de ser um arquivo pessoal não o torna, de antemão, mais promissor ou interessante que um arquivo de natureza institucional. É bem verdade que os arquivos pessoais despertam um certo “fetiche”, pois acredita-se que eles possam revelar algo de sensacional a respeito da vida das pessoas ou mesmo abrir um canal direto de contato com a “memória” dos indivíduos. No fundo, não é bem assim. Como bem pontuou uma importante arquivista alemã, chamada Angelika Menne-Haritz, os arquivos não contêm bombas ou tesouros escondidos, apenas a interpretação pode transformar um documento qualquer em algo explosivo. A professora Ana Maria Camargo, sem dúvida nossa grande referência, no Brasil, sobre os arquivos pessoais, vai na mesma direção em um ensaio dos mais provocativos, sugestivamente intitulado “Arquivos não falam”. Pois bem, a grande diferença, aqui, é que se trata de um arquivo e não de uma coleção, ou seja, esse conjunto de documentos é o resultado de uma acumulação contínua, progressiva, um processo de “sedimentação”, como disse Elio Lodolini. Os documentos que compõem um arquivo não são produzidos visando-se à posteridade, não são apenas expressões da vontade individual ou da criatividade humana, eles são, em primeiro lugar, instrumentos de ação, ferramentas pelas quais as pessoas ou as instituições viabilizam suas atividades rotineiras. É por isso que se diz que o arquivo é orgânico, um todo articulado e solidário, em que as partes (os documentos) nunca têm sentido isoladamente. Essa característica dá a qualquer arquivo a qualidade única de oferecer um testemunho sui generis da trajetória de quem os acumulou. E é também o que torna possível a utilização do arquivo para fins muito diversos daqueles para os quais ele foi originalmente acumulado.
Marta – É importante observar que existem outros arquivos de dramaturgos  custodiados por outras instituições no Brasil, inclusive de contemporâneos de João das Neves, e que certamente o cotejamento desses arquivos possibilitará o avanço de pesquisas na área. 

 

A diversidade de suportes e formatos desse arquivo, como recortes jornais, fotografias e arquivos multimídias, demanda cuidados especiais? O que essa diversidade abre de oportunidades para se pesquisar João das Neves?
Marta –
Essa diversidade de suportes nos leva a pensar que, na contemporaneidade, os meios eletrônicos e digitais representam uma solução de preservação que parece óbvia, mas que na verdade não é de forma alguma, uma vez que esses meios apresentam um rápido processo de obsolescência. Exigem investimentos financeiros e de recursos humanos que, na maioria das vezes, são rapidamente ultrapassados e perdidos. Assim, é necessário o desenvolvimento de um planejamento de caráter interdisciplinar que articule os vários elementos e que garanta a longevidade do acesso e a autenticidade dos documentos. E ainda a respeito da singularidade do arquivo de João das Neves, destacaria o fato de ele ter trabalhado em parceria com um artista plástico na montagem de cenários de algumas de suas peças, o que tem como consequência a presença de expressivos croquis neste acervo.
José Francisco – A variedade de suportes e formatos demanda cuidados específicos para sua adequada conservação e preservação, que se traduzem no acondicionamento, no controle ambiental dos depósitos em que os documentos são armazenados, em intervenções de reparo e restauro executadas por especialistas altamente qualificados. Em geral, as instituições de custódia nunca trabalham dentro das condições ideais, uma vez que o custo disso é muito alto, e isso não ocorre apenas no Brasil. De toda forma, há que se destacar o excelente trabalho de acondicionamento e conservação realizado por Diná Araújo no arquivo de João das Neves, não só pela utilização de materiais de primeira linha, como pelo zelo que se observa para com a manutenção da integridade dos documentos. A diversidade de suportes e formatos que se verifica neste arquivo abre, no meu entendimento, um campo riquíssimo para a área da conservação e preservação de acervos, no que diz respeito à pesquisa e ao desenvolvimento de soluções criativas, responsáveis e economicamente viáveis de acondicionamento e preservação dos documentos em longo prazo, tanto para os documentos em suportes tradicionais quanto para os  documentos eletrônicos e digitais. O arquivo de João das Neves é abundante em recortes de jornal e a riqueza desse material é enorme. Muitos dos jornais que fazem parte dos arquivos pessoais, recortados ou inteiros, são representativos das chamadas “imprensa alternativa” e “imprensa nanica”, são periódicos que tiveram circulação restrita, descontinuada e que raramente se encontram digitalizados nas hemerotecas digitais, são fontes valiosas e raras para quem se interessa, por exemplo, pela história da imprensa.


Quais as possibilidades que se abrem com a aquisição de arquivos pessoais pela UFMG e qual a importância dos arquivos pessoais no âmbito das universidades?
José Francisco –
A pesquisa é um dos pilares sobre os quais se sustenta a universidade. E ela não depende apenas de modernos laboratórios e equipamentos, porque a ciência e a produção do conhecimento vão além das bancadas, dos microscópios, da combinação de reagentes. O arquivo é, por excelência, o laboratório do historiador, mas ele também serve aos geógrafos, linguistas, literatos, cientistas sociais, antropólogos, etnógrafos, arquitetos... Geralmente associamos os usuários dos arquivos aos pesquisadores das ciências humanas e sociais, mas, na verdade, os arquivos podem ser fonte e objeto de trabalho para a pesquisa em qualquer área do conhecimento, para a biologia, a química, a física... As possibilidades são infinitas! A quantidade de dissertações e teses produzidas a partir dos arquivos, nos mais diversos campos disciplinares, atesta e credencia a importância dos arquivos. Além disso, quando fazem parte do acervo universitário, os arquivos adquirem importância fundamental para o ensino e para a extensão, os outros dois pilares do tripé de sustentação da universidade, pois podem ser utilizados como instrumentos para a formação, em experiências didáticas, e para promover a aproximação da universidade com a comunidade em que ela se insere.
Marta – A aquisição de arquivos pessoais pelas universidades é muito importante porque elas se reconhecem na função de dar acesso não só aos membros que fazem parte da sua comunidade, mas reconhecem também que o acervo pode ser acessado por qualquer cidadão externo à comunidade universitária, de modo que o arquivo de João se torna fonte de fundamentação das atividades de outros artistas.
José Francisco – As universidades geralmente têm acervos importantes compostos por arquivos e coleções de natureza pessoal, mas, a despeito de sua relevância, esses arquivos ocupam sempre uma zona de penumbra, quando não uma posição marginal. E isso vale tanto para o arquivo da própria universidade (seu arquivo administrativo) quanto para esse acervo que vai sendo constituído em resposta às demandas sobretudo da pesquisa. O caso da USP, que estudei no mestrado, é exemplar: por meio de um amplo diagnóstico, o que se verificou foi o abandono de uma parcela expressiva do acervo arquivístico e a situação de penúria de muitos pequenos centros de memória espalhados pela universidade. A situação na UFMG parece ser um pouco melhor, não só porque é uma universidade menor em tamanho, com uma estrutura muito menos capilarizada que a USP, mas sobretudo por contar com uma Rede de Museus que agrega os centros que custodiam arquivos pessoais e lhes dá visibilidade institucional. Mas é importante frisar que, de maneira geral, faltam às universidades brasileiras políticas de desenvolvimento de acervo que contemplem não só a aquisição sustentada de arquivos pessoais, como também diretrizes mínimas para o seu processamento técnico.

 

Com a maior divulgação desse acervo através de pesquisas, atividades de ensino e exposições, como Confluências: A vida de João das Neves, quais as suas expectativas e previsões em relação a esse arquivo?
José Francisco –
Espero que essas iniciativas estimulem mais e mais o uso do arquivo, afinal, é para isso que ele foi adquirido. E que esse interesse crescente sensibilize a universidade para a importância de seu acervo, que não se restringe ao arquivo de João das Neves. O arquivo de João, embora já esteja sendo utilizado para fins didáticos e também em pesquisas e ações de extensão, ainda carece de organização, de descrição e de instrumentos de recuperação dos documentos que promovam o elo entre o próprio arquivo e as indagações dos pesquisadores. Ainda há muito a ser feito e tudo isso é fundamental para que o arquivo e, por extensão, a própria universidade, possam cumprir plenamente sua função social.
Marta – Ainda no campo acadêmico, acredito que essa iniciativa que envolveu alunos dos cursos de museologia, arquivologia e biblioteconomia nos municie de elementos para discutir o conceito e a prática de difusão de acervos, especialmente no caso dos arquivos pessoais. Muitas vezes, no âmbito da arquivologia, acreditamos que a difusão e o acesso se resolvam apenas com a elaboração de bons instrumentos de busca. A soma de novos olhares tem apontado novas e promissoras direções. Essa exposição, organizada no âmbito da disciplina de exposição curricular, orientada pela professora Verona Segantini, é um bom exemplo disso.

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